
Sou Carla, companheira de Gustavo, mãe de Nise, solzinho das nossas vidas que hoje completa um mês de vida.
Posso dizer que tive uma gravidez engajada, no sentido de que a dedicação ao melhor gestar possível e a preparação para o parto foram enormes, as maiores que eu poderia ter.
Nise foi uma bebê muito desejada, mas eu sentia que teria que me preparar muito para recebê-la. Tendo acabado de completar 36 anos, sendo uma pessoa sedentária…pela primeira vez em minha vida entendi aqueles mantras de autocuidado e os coloquei em prática.
Quando soubemos da gravidez nos preocupamos com o fato de sermos aventureiros recém chegados em Salvador e termos pouco conhecimento sobre a rede de atendimento pré-natal e as possibilidades de acompanhamento o mais natural e humanizado possível. Tivemos uma experiência traumatizante, até que, por indicações de amigas, chegamos em uma doula e uma médica obstetra com posturas profissionais que nos proporcionaram a segurança de que estávamos qualitativamente assistidos.
Trilhamos mentalmente um plano ideal: buscaríamos fazer o melhor pré-natal possível para podermos parir no Centro de Parto Normal (CPN) “Mansão do Caminho”, espaço público, em parceria com instituição filantrópica, sob os protocolos do SUS, referência de parto humanizado na Bahia que, poucos dias depois do nascimento de Nise, fechou suas portas sob a alegação eficientista de insuficiência de atendimentos diante do investimento de capital. Movimentos sociais e apoiadores/as da CPN têm pressionado pela reversão do cenário.
Mas o motivo da nossa história concreta não ter tido este desfecho idealizado foi a descoberta e tratamento de uma diabetes gestacional. Não seria mais possível parir nem no CPN, muito menos no modo domiciliar. Era preciso uma estrutura hospitalar. Ao fim desse processo, a decisão possível e melhor para nós foi parir no hospital abrangido pelo convênio, com a equipe que nos acompanhou no pré-natal. Parecia ser o caminho mais seguro para que escapássemos de violências obstétricas, com chances de imposição artificial quanto à necessidade de realização de uma cesariana, por exemplo. Parir no Brasil é ter que forjar um grande escudo contra a tendência cesarista, o discurso medicalo e hospitalocêntrico e a retirada do protagonismo da parturiente que te cercarão por todos os lados.
Feitas essas contextualizações e indo mais diretamente ao relato de parto. Nise resolveu esperar a finalização de uma reunião super importante que seu pai teria que participar, inevitavelmente, para dar o “ar da graça”. Sincronizados.
Por conta da diabetes gestacional, tivemos que iniciar procedimentos de indução natural assim que completamos 40 semanas: óleo de prímula, osteopatia, acupuntura…até que na manhã de sábado fizemos o descolamento de membrana. Ali a médica já anunciou que o colo do útero estava molinho e que tínhamos 3 cm de dilatação. Estava tudo preparado, só faltavam as contrações iniciarem.
E não deu outra, foi naquela madrugada que a bolsa estourou, quando me levantei para ir ao banheiro. Era algo como 3h40. Conforme orientação, já avisamos a enfermeira e a doula1, que nos alertaram que o trabalho de parto talvez demorasse a se iniciar, que eu deveria descansar naquele momento. Fui tomar um banho e as contrações foram se aproximando. No início fraquinhas e eu ainda tentando identificá-las, mas rapidamente evoluíram e Gustavo começou a registrar duração e frequência (intervalo entre elas).
A evolução foi impressionante e às 6h a enfermeira e a doula estavam em casa nos auxiliando a amenizar as dores, com banho quente, bolsa de água quente, pressão na região da bacia e lombar, óleos essenciais, etc.
Eu fui entrando na onda do trabalho de parto, já absorvida por aquela dinâmica e buscando me concentrar ao máximo no lidar com as contrações.
Em um determinado momento, por volta das 8h, com o ritmo e intensidade das contrações, a enfermeira resolveu fazer exame de toque, pois eu havia testado positivo para streptococcus, o que significava ter que ministrar antibiótico na veia quatro horas antes da bebê nascer.
Estava com 5 cm de dilatação, em fase ativa e avaliou que, pelo ritmo das coisas, seria melhor nos prepararmos para ir ao hospital. Eu pensei “será que em 4-5 horas Nise estará nos meus braços?” Lembro da doula nesse momento dizer que eu estava ótima, com muito foco e que tinha sorte também, pois alguns trabalhos de parto eram muito mais longos, com 12 a 15 horas. Eu me apeguei a isso.
Nisso eu comi dois pedaços de batata doce, um de queijo, me vesti, pegamos nossas malas e partimos em carona com a doula. Com um travesseiro de apoio, fui com a cabeça no porta-malas e joelhos no banco.
Na entrada do hospital encontramos com a médica e ela me disse que eu estava com uma cara boa. Generosa! risos
Os procedimentos burocráticos foram relativamente ágeis, mas passei em uma sala, depois em outra, onde já colocaram o acesso e a primeira dose do antibiótico (ao longo da jornada foram mais três ou quatro). Nesse caminho ouvi que a sala de pré parto e parto estava ocupada no momento…
A médica sugeriu que fôssemos para o quarto enquanto isso. Lá conseguimos novamente estabelecer um ambiente acolhedor e de serenidade, ainda que, de tempos em tempos, abrissem a porta, a luz e o barulho externo invadissem e alguém chegava para medir pressão, temperatura, oxigenação ou trazer alguma comida que eu não conseguia ingerir.
Daí em diante não consigo descrever tão bem cronologicamente os acontecimentos.
Posso dizer que durante aquele fim de manhã e toda a tarde foram muitas as sugestões de posturas e posições da equipe que pudessem favorecer a descida da Nise. Penso, desde a minha condição leiga, que, provavelmente, quase todas as possibilidades foram testadas. Instintivamente eu só pensava em ficar de pé, apoiando na cama, com os olhos bem fechadinhos. Lembro de tantas vezes o Gustavo sugerir que tentasse sentada ou deitada, preocupado por ficar tantas horas verticalizada. Apesar desse impulso, me dediquei a colocar em prática todas as sugestões da equipe. Em algumas eu sentia bastante desconforto e percebia que não conseguir fazê-las tão bem ou por muito tempo passava a me gerar certa angústia.
Não sei quando, mas teve um momento de “virada de chavinha” para mim. De repente passei a me fixar no relógio. Minhas tentativas de não me distrair observando o ambiente passaram a falhar. O passar do tempo e a ausência de boas novas me geraram angústia.
Fui uma parturiente introspectiva. Ouvi muito durante a gestação que o estado de espírito e os comportamentos de uma mulher parindo são surpreendentes. Eu me calei e me recolhi. Nem mesmo com o Gustavo eu conseguia compartilhar tanto, apesar de desejar muito e me sentir mais segura com a sua presença constante.

Quando o relógio passou a ser minha mira, a vontade de chorar também veio.
Lembro da enfermeira dizendo que eu podia tentar expressar o que eu sentia. Eu chorava e dizia que eu “não estava conseguindo ajudar a Nise”.
O fato é que, ao anoitecer, a dilatação permanecia em 7 cm (foram muitas horas com essa mesma medida) e a bebê tinha se posicionado/girado/descido muito pouco. Foi quando a médica me contou desse cenário e da perda do ritmo das contrações e trouxe a posição de que poderíamos aplicar ocitocina, em suaves gotejamentos, para recuperá-lo. Assim fizemos.
Foram pelo menos mais quatro horas em trabalho de parto intenso. Quando fomos nos aproximando da meia noite comecei a verbalizar que não estava mais aguentando. A dor era intensa, mas o grande fator é que eu estava completamente exausta. Entre uma contração e outra eu dormia- delirava (não sei ao certo classificar) e já não encontrava forças ou concentração para lidar com tudo. Nessa etapa a doula sempre me alertava para a minha expiração, que estava superficial e incapaz de renovação.
Depois de verbalizar algumas vezes que eu não conseguia mais, a médica sugeriu que interrompêssemos a ocitocina, para o ritmo das contrações diminuir e eu conseguir descansar um pouco.
Fui para a cama. Enfermeira, médica e doula ficaram penduradas entre uma cadeira e um sofazinho e Gustavo praticamente no chão, sentado naquela escadinha que fica ao lado da cama hospitalar, integralmente ao meu lado.
Entre uma contração e outra, dormia.
Durante todo o trabalho de parto, médica e enfermeira auscultavam o coração de Nise, fazendo marcações em algum papel.
Na madrugada, a médica resolveu fazer uma cardiotocografia, um exame capaz de monitorar a frequência cardíaca e movimentos do bebê, assim como a presença e duração de contrações do útero.
Por volta das 6h ou 7h, ela repetiu o exame, mas antes conversamos sobre. Ela disse que era perceptível uma diminuição do ritmo cardíaco da bebê quando das contrações, apresentando-se como uma situação de intranquilidade fetal. Não era um sofrimento fetal, mas a preocupação se dava com a evolução do quadro, caso voltássemos a ministrar a ocitocina e o trabalho de parto ainda perdurasse por algum tempo.
Me colocou que faria uma conversa com sua parceira de trabalho sobre a necessidade ou não de alterarmos a via de parto, avançando para uma cesariana, mas que queria me ouvir. Eu lhe disse que confiava em seu trabalho e seu olhar profissional e que desejava apenas o desfecho que proporcionasse mais segurança para a Nise.
Depois de dialogar com sua parceira, ela me sugeriu que tomasse um banho relaxante, tentasse comer algo e depois repetiríamos o exame. O padrão se repetiu. Compartilhou novamente com sua parceira, bem como com outros médicos/as. Retornou com a posição de que deveríamos caminhar para a cesariana.
Ela me explicou que não há como saber o que causa essa situação da não descida da bebê e consequente avanço da dilatação. Disse poder ter alguma relação com a diabetes (ou não) ou poder ser mil e outros fatores, menos a crença falsa e maléfica de que a mulher “não teria passagem” (me reforçou que isso não existe e que todas as mulheres podem parir).
A doula, em encontro posterior, expressou sua impressão de que talvez tenha ocorrido uma saída precipitada de casa, que talvez ainda estivéssemos em fase de latência e que o ambiente hospitalar pode ter “quebrado” o ritmo do trabalho de parto.
Seja como for, não há ciência que dê conta da complexidade desse acontecimento que é o nascimento. Por dias e dias tentei racionalizar explicações sobre o ocorrido, mas sucumbi à percepção de que parte da vida é mistério. Foi meu primeiro aprendizado como mãe.
Daí em diante, é como se um novo filme começasse. E confesso que suas primeiras cenas se aproximaram ao gênero terror para mim.

Assim que a médica comunicou a decisão nos sentimos muito tristes e logo a doula veio conversar e tentar trabalhar conosco essas emoções. Mas a porta se abriu com uma trabalhadora quase festejando a ida de mais uma pessoa ao centro cirúrgico, falando alto, entregando roupa e dizendo para subir na maca.
Em poucos minutos já estava no elevador.
Gustavo teve que se dirigir a outra entrada e o nosso medo era que ele não estivesse comigo em todos os momentos dali em diante. Ele vestiu a roupa indicada e um trabalhador o orientou que ali aguardasse, até que eu estivesse “prontinha” sic (seja lá o que isso signifique!).
Gustavo me contou que trocou olhares com a doula do outro lado e simplesmente seguiu.
Entrou na sala de parto errada – risos – e depois foi ao meu encontro.
Surpreendentemente, as pessoas trabalhadoras no momento da cirurgia em si – enfermeiras, neonatologista, anestesista – foram todas muito cuidadosas e respeitosas e o ambiente, apesar de tudo, estava harmônico para a chegada da nossa pequena. Gustavo esteve ao meu lado, com o celular tocando a playlist preparada para ela (essa que foi ouvida também nas muitas horas anteriores e que reverberou em mim durante muitos dias após o parto, me provocando emoções).
Eu estava um tanto aérea, exausta e talvez assustada.
A verdade é que durante os nove meses só pensamos na cesariana como algo protocolar a constar no plano de parto. Eu acreditava piamente que esse não era um tema a me deter, já que supostamente alheio à nossa realidade.
A cirurgia foi muito, mas muito mais rápida do que eu poderia cogitar. Acredito que em 15 minutos do seu início já escutamos o chorinho da nossa florzinha. Gustavo chorava, chorava, chorava junto. Muito rapidamente colocaram-na sobre o meu peito e ela estava com os olhinhos muito espertos e a boquinha a mil, procurando o alimento. Eu não podia abraçá-la ainda, mas era muito confortante tê-la ali, cheinha de vida.
Pouco depois tiraram ela do meu peito para alguns rápidos procedimentos na própria sala, com o acompanhamento do Gustavo, e rapidamente, trouxeram-na de volta. Inclusive as aplicações do colírio e da vitamina K foram feitas nela comigo. Desde então, não nos separamos.
Daí em diante foram muitos os acontecimentos, emoções, mas são temas para outros textos.
Li muitos relatos de parto durante a gravidez. Eu gostava. Sentia-me mais fortalecida ao saber das realidades de muitas outras mulheres. Cada história, cada mulher, cada parto, cada bebê eram únicas e, ao mesmo tempo, tão universais.
Todos os relatos que li tiveram o parto normal como início e desfecho. Gostaria de ter lido uma história semelhante à minha.
Reivindicamos o parto normal, o mais natural e humanizado acreditando ser o melhor para a mulher e para o bebê. Sabemos que a cirurgia deveria servir apenas para os casos nos quais se rompe com essa condição. Acredito termos vivido esse cenário.
Mesmo assim, o parto não é vivido apenas desde um processo de racionalização, são muitas e profundas camadas emocionais ativadas nesse processo tão intenso e profundo.
Nesse mês que passou, entre os desafios dos cuidados desse novo serzinho, fui dando vasão a emoções represadas disso que foi vivido. Hoje já não sinto a angústia dos primeiros dias. Sinto que foi a nossa primeira e intensa parceria, Nise e eu. Nós nos demos as mãos e encaramos essa travessia. E foi do nosso modo, no nosso possível. Saímos mais fortes!
E assim será, sempre!
Todo mundo quer voar Nas costas de um beija-flor Todo mundo quer viver de amor Mas nem tudo é só querer
(…)
Todo mundo quer voar além Mas é preciso aprender
Voarás, voarás
(Paulinho Pedra Azul)

- A doula que nos acompanhou durante toda a gestação estava em um parto no mesmo hospital. Tivemos a companhia de outra doula integrante de seu Coletivo, que, maravilhosamente, deu-nos todo o suporte por muitas horas, até que se alternaram. Somos muitíssimo gratos! ↩︎





