Aos que virão

Foto de Sebastião Salgado

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.
Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.
Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular – foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
– muito mais sofridamente –
na primeira e profunda pessoa
do plural.
Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.
É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.
Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.
Para os que Virão, Thiago de Mello

É com esperança pulsando no peito e vontade de exorcizar por palavras toda a desumanização posta que o blog “Aos que virão” nasce neste despertar de 2020. Inspirados em Thiago de Mello, que nos convoca a uma condição na qual precisamos deixar de ser “apenas a solitária vanguarda de nós mesmos”, tratando de “ir ao encontro”, não importando quão doído este processo possa ser, que nos colocamos à crítica e ao sabor do movimento.

Ainda que não carreguemos o sol “em nossos bolsos de palavras”, desafiamos o tempo da instantaneidade comunicacional, das fake news e pânicos morais, do pessimismo que ultrapassa a razão e acerta em cheio a nossa ação coletiva, para concretizar uma vontade antiga de reunir em um mesmo espaço virtual reflexões sobre enlaces entre passado, presente e futuro: sobre a memória dos que tombaram para que aqui pudéssemos estar de punho em riste e voz solta; sobre os desafios políticos que enfrentamos na atualidade; sobre as bases sustentadoras das utopias revolucionárias que semeamos e da mulher e do homem que almejamos nos constituir ao lutar por elas.

Somos –Carla Benitez e Gustavo Seferian – professora e professor universitários e militantes. Gustavo, movido pela história que todas e todos nós participamos, vem buscando acender luzes, em seu cotidiano de trabalho e lutas, sobre os acontecimentos históricos relevantes para a organização das classes trabalhadoras em dias aparentemente tão ordinários. Carla vem carregando há tempos o incômodo sobre a necessária construção de pontes entre academia e luta, a serem permeadas por linguagens acessíveis e pautadas no afeto. É desta alquimia entre nós que o “Aos que virão” pretende ser um canal de ideias, no qual buscaremos socializar reflexões sobre acontecimentos políticos e temas de fôlego que consideremos possam ter algo a colaborar em nossos despertares, além da realização do por nós já carinhosamente denominado “Calendário Insurgente”, seção do blog na qual, diariamente, postaremos algum importante fato histórico a engrossar o caldo das resistências populares e nos refrescar a memória de que “nada deve parecer impossível de mudar”.

Este será nosso Baile da Esperança e lhes convidamos a dançar e brindar conosco!

Viva!

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