Esta quaresma em tristeza e solitude teria permitido ao mundo significar a renovação?

Por Carla Benitez

Um texto sobre possível sentido da Páscoa, em meio a tudo que estamos vivendo…

Um desabafo. Um dos meus anseios íntimos ao animar a ideia deste blog partia de um desejo de colocar a cara no sol, de expor meu corpo-palavra ao mundo, enfrentando o medo de julgamento, encarando o fato de sermos minhas palavras e eu falíveis e, mesmo assim, entender que há que se contribuir no reencantamento do mundo também por meio das palavras.

As palavras constroem o mundo real e são construídas por ele. Ele, que pulsará independentemente das minhas ou das suas palavras. Mas as palavras podem alterar a nota, o tom, a cor, cheiro e aspereza deste real-metamorfose. Quando elas caminham com os gestos, aí sim, em comunhão entre centenas, milhares, milhões de corpos e palavras, podem gerar fraturas bifurcadas, a nos apontarem possíveis e incertos caminhos de libertação.

Eu sempre acreditei no poder de colocar suor, emoção e memória em palavras e, ao mesmo tempo, sempre temi cada uma delas que fossem desenhadas por mim.

Nesta quarentena tem sido difícil gerar palavras que sinta merecerem ganhar vida própria. Está tudo em combustão. Calor demais para dar-lhes forma. Só tenho conseguido me derreter nesses tempos.

Todos falam muito! As informações borbulham como se fervidas por esse calorão pandêmico.

A mim tem sido melhor apreender e digerir.

Acontece que sentei hoje com o desafio de escrever sobre o que tenho sentido, ainda que não fosse útil ou lido até o fim por alguém além de mim (e do meu parceiro de blog – e de vida). Almejava que fosse gerado, era isso.

Como colocar em palavras tudo o que tem me assombrado e encantado em um tempo extraordinário e inimaginável que é este vivido?

Que neste domingo de Páscoa consiga intercambiar palavras e colaborar nessa comunhão de ideias e sentidos sobre o que resta e sobre o devir.

Aqui vai. Sinto que foi preciso o aparecimento deste vírus, inimigo invisível, diante do qual apenas os mais obscurantistas se negam a afirmar sua danosidade humanitária, para que os limites absolutos da ordem do capital fossem percebidos para muitos de nós. Mas não nos iludamos, eles jamais serão assumidos por aqueles que sempre retiveram os doces para seu exclusive deleite.

Há mais ou menos uma década, tive oportunidade de ler um pouco mais a fundo um autor marxista que marcou sobremaneira meu olhar para o mundo: István Mészáros. E foi ele quem primeiro me colocou os significados de um alcance irreversível de uma etapa de crise estrutural da ordem do capital.

Gestada décadas antes, inaugurada nos anos 1970, tendo seus contornos mais explicitados com a crise econômica de 2007/2008. Sem pretender fazer neste breve e informal texto um aprofundamento teórico sobre o assunto, desejaria resgatar aqui o essencial de sua contribuição em dois fundamentais vieses:

i. Esta crise ganharia o qualitativo de ser estrutural por abarcar muitas dimensões (mediações de segunda ordem) para além do “meramente econômico” (como se esta dimensão, em algum momento, se sustentasse ou pudesse ser compreendida isoladamente!). Mesmo que nunca tenha sido auto suficiente, o que este autor pretendia demonstrar é que as cíclicas crises econômicas stricto sensu, componentes estruturantes do sociometabolismo do capital, agora se alongam no tempo e suas soluções são mais frágeis, gerando nova onda de crise posterior ainda mais forte e devastadora. Mas, mais do que isso, ela será acompanhada por crises profundas em outras esferas, como a do trabalho, família, meio ambiente e outras. Por isso, um continuum de uma crise não meramente cíclica, mas estrutural.

ii. As explicações robustas do autor para esta crise passam por uma importante chave de leitura – e aqui mastigada para uma reflexão mais imediata e emergencial nossa: a de que o fundamento para esse continuum estrutural de crise é a percepção de que já não é mais possível arrastar para debaixo do tapete as contradições intrínsecas da lógica de acumulação, concentração e expansão do sociometabolismo do capital. O contraditório que por um tempo serviu como combustível, agora, inevitavelmente, se mostra como um breque emperrado, travando a roda alienante do capital de continuar passando por sobre nós como se natural ou inevitável fosse.

Carreguei o aprendizado destas duas lições ao longo desta última década de estudos e militância e fui temperando-o com valiosos outros aprendizados, a aprofundarem para mim aquelas duas noções postas. Aqui destaco alguns deles.

Começo com o feminismo marxista. De todas as influências e inspirações que tive nessa trajetória, com suas muitas diferenças e polêmicas, foi se maturando a mim dois pontos centrais. De um lado, a família monogâmica heterossexual historicamente significou o locus privilegiado de reprodução da vida nesta sociedade – e, portanto, de reprodução da mercadoria força de trabalho. Sem ela a roda não gira, definitivamente. De outro, foi se demonstrando que, com a crise estrutural, o peso do desgoverno na produção cai todo sobre a reprodução social e fica explícito que, quanto mais se desenvolve o capitalismo, mais e de diferentes formas é preciso oprimir, diferenciar, colocar em desvantagem determinados grupos populacionais, centralmente desde um recorte racial e de gênero. Mais do que isso, quanto mais em crise, mais mercantilização da vida haverá, mais destruição de direitos e de serviços públicos se seguirá e mais sobrecarga de trabalho de reprodução social para mulheres resultará, em especial mulheres negras e imigrantes.

O que a crise humanitária gerada com a pandemia do novo coronavírus fez, ao sobrecarregar alarmantemente as mulheres nos lares e nos serviços de reprodução social, foi tirar a fantasia e a maquiagem, em nível planetário, até então não percebidas como disfarce para muitos.

A demanda por igualdade nas condições de trabalho assalariado e não-assalariado das mulheres é inconciliável com a ordem posta. É um dos limites absolutos desta etapa do sociometabolismo do capital.

Nesta caminhada, tive a feliz oportunidade de trilhá-la nos últimos anos junto a uma organização política que reivindica o ecossocialismo, percebendo o conflito natureza-capital como também determinante. Mészáros lá atrás apontava que os padrões de consumo do lado rico do globo eram insustentáveis de serem ampliados, por razões de colapso planetário mesmo. O que significava que a intrínseca demanda por criação de falsas necessidades de aquisições de bens e consumo, acompanhada da intensificação da obsolescência programada, era inerente à possibilidade de acumulação e expansão, mas uma impossibilidade para que natureza e natureza-humana sobrevivessem em médio prazo. Era um limite absoluto posto.

E então fui aprendendo um pouco sobre aquecimento global, sobre o caráter destrutivo do deserto verde e da indústria massiva de carnes, sobre o impacto do uso global de combustíveis fósseis e a necessidade de repensarmos modelos energéticos.

Mas foi preciso a Amazônia sangrar e isso ser percebido como céu preto na SP-locomotiva do Brasil para que a maioria da esquerda começasse a despertar para a necessidade de jogar fora a antiga roupa do padrão de desenvolvimento e progresso industrial hegemônica no século XX como chave necessária para pensar a transição e superação da ordem capitalista.

Terminamos o ano com a Amazônia em chamas e começamos o outro com a pandemia, a nos apontar a linha tênue – em tempos de intensa circulação de pessoas e mercadorias em escala global – na relação entre homem e natureza que não seja atentatória à saúde pública e ao equilíbrio do ecossistema.

Como aprendi recentemente em texto de Ana Paula Perrota, longe do discurso racista que condena moralmente os hábitos alimentares dos chineses – tidos como inferiores e sujos – e a existência de seus “mercados úmidos”, a reflexão não deve olhar exclusivamente para as origens deste novo coronavírus, mas também para as condições de surgimento e difusão de doenças como SARS, influenzas aviária e suína, doença da vaca louca, para percebermos que o foco também passa pelo regime industrial de produção animal tão alargado no Ocidente (ainda que este também possua, concomitantemente, seus “mercados úmidos”), que é indutor por excelência de zoonoses diante de suas condições estruturais, medidas pela necessidade de produção massiva, pautadas no confinamento estressante de diferentes espécies de animais.

O limite absoluto está colocado na insustentabilidade, a curto prazo, desta relação desequilibrada entre capital e natureza.

Enfim, a pandemia de COVID-19 torna evidentes e insustentáveis estes limites absolutos há décadas postos e manejados mediante um caráter ainda mais destrutivo deste sistema.

O que estamos assistindo é que a atual pandemia impôs compulsoriamente a diminuição do ritmo de rapina e destruição do capitalismo, assim como nos fez assistir perplexos a líderes políticos europeus defenderem a retomada de proteção social, assim como quase o mundo todo – exceto os apologetas da terra plena e da “gripezinha” chamada covid-19 – defender e reverenciar a ciência e as trabalhadoras de cuidado de saúde, bem como o serviço público de saúde em si.

Mas não nos iludamos – e talvez aqui esteja a sutil contribuição deste texto. Os limites absolutos da ordem do capital demonstram que a mecânica de produção-acumulação-expansão desta ordem social não pode mais deslocar suas contradições e seu caminho se mostra com uma bifurcação inevitável: ou a barbárie ou uma transcendência revolucionária.

O que não significa que a dinamicidade e capacidade de reinvenção não continuarão se revelando, mas dentro da manobra do aparente, pois do contrário se colapsariam suas estruturas fundantes. Sem dúvida haverá mais políticas públicas e direitos para o andar de cima – geopoliticamente falando e também em termos de relações de classes – e também mais mortes, precarização das vidas e controle violento dos do andar de baixo.

Não nos iludamos com o discurso de gratidão de Boris Johnson ao serviço público de saúde e seus funcionários imigrantes por terem salvo sua vida ou com mudanças de postura de indústrias farmacêuticas e outras. Tudo isso é contingencial e, para eles, um pesadelo que precisa ser superado para o retorno à “normalidade” expansionista, acumuladora e centralizadora de capital.

A grande lição sobre renovação diante desta trágica e profundamente triste quaresma só poderá ser verdadeiramente tomada pelas mãos daquelas e daqueles que, coletiva e organizadamente, inventarem os passos a serem dados diante da escolha pela ruptura na estrada da história.

E assim vou dando cabo a este texto escrito bem bem em primeira pessoa – com isso almejando assumir unilateralmente seus eventuais devaneios-, meio como reflexão, meio como desabafo. Estou segura que esta Páscoa foi reflexiva para as maiorias, em todo o mundo, como há tempos não se percebia. Cuidemo-nos, olhemos pelo outro e façamos laços, para construirmos redes fortes capazes de nos conferirem o verdadeiro sentido de renovação.

*O texto seria de Páscoa, chegando um dia depois por motivos de: decidi, respeitosamente, diminuir o ritmo por aqui 🙂

Colo abaixo algumas das pessoas que, direta ou indiretamente, foram nomeadas neste texto como inspiração para suas reflexões:

ARRUZZA, Cinzia. Feminismo e Marxismo: entre casamentos e divórcios. Lisboa: Edições Combate, 2010.

LOWY, Michel. O que é o ecossocialismo? São Paulo: Cortez, 2019.

MÉSZÁROS, István. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. Tradução Paulo Cezar Castanheiras e Sérgio Lessa. São Paulo: Boitempo, 2002.

PERROTA, Ana Paula. Serpentes, morcegos, pangolins e ‘mercados úmidos’ chineses: Uma crítica da construção de vilões epidêmicos no combate à Covid-19. In DILEMAS: Revista de Estudos de Conflito e Controle Social – Rio de Janeiro – Reflexões na Pandemia 2020 – pp. 1-6.

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