Impeachment como beco sem saída: uma resposta a Vladimir Safatle

Por Gustavo Seferian, professor da Faculdade de Direito da UFMG

No fim do dia 20 de março, recebi uma chuva de mensagens compartilhando texto escrito pelo professor e colunista Vladimir Safatle. Publicado no El Pais, traz em seu cerne o apelo pelo impeachment de Jair Bolsonaro como uma aparentemente miraculosa saída para a crise que assola o país, esta que entendemos ter sua expressão mais acentuada em uma dimensão sanitária, mas que não pode ser lida senão como uma crise civilizacional – e aqui opto por usar da chave de Michael Löwy  para a leitura – de maior envergadura, cuja interpretação remeto a outro texto escrito dias atrás, que até o momento sigo reivindicando.

Não só a repercussão do texto de Safatle – que irrompe em um vazio sobre o debate público acerca do impedimento – mas sobretudo as nuances de seu conteúdo demandam uma profunda discussão, das quais não posso me isentar. E minhas maiores consternações nascem do fato do filósofo, creio eu, expressar seu genuíno convencimento nas linhas que aqui rebato, pelo que aponto os maiores problemas que encontro em seu texto.

1. Começo denunciando o espantalho da “esquerda” que cria Safatle para sinalizar sua anteposição de ideias. Sem dar nome aos bois, e projetando à apreensão do leitor ou da leitora uma massa amorfa que generaliza em um mesmo campo reformistas convictos e revolucionários honestos – ou mesmo outros setores com boa compreensão política e fina apreensão jurídica – que neste momento se colocam contra o processo de impedimento, constrói o que seria uma posição política mais acertada em nosso tempo.

Ocorre que nesta noite nem todos os gatos são pardos.

Muitos pontos que Safatle demarca em seu texto por certo podem estar associados a um campo da “esquerda” reformista, convicta de estratégias eleitoreiras e populistas, que reputou recentemente ter morrido  – reflexão que foi depois aprimorada em seu clamor por reinvenção –, em que caberia muito bem o messianismo lulista. Válida e acertada é a crítica direcionada ao grau de passividade bovina que recai grande parcela da social-democracia de baixo calibre do país (expressa sobretudo por alas majoritárias do PT e PCdoB). Esta, tentando se mostrar em público como dotada de tímida paciência histórica e remetendo a 2022 (ou mesmo para um incerto outubro de 2020) a solução de todas as mazelas que a agenda neoliberal imprime há décadas, catalisada pela afirmação do neofascismo, busca uma sobrevida que, concordando com Safatle, é de todo impraticável.

Ocorre que o pensamento político expresso por Safatle se resume a um empobrecido binarismo que cria clivagem entre xs “pró” e xs “contra” impeachment como se em tais campos existisse alguma unidade estratégica ou mesmo de ação. Intenta diluir – ou o faz sem perceber – outras tantas e importantes percepções no campo da esquerda que estão atentas à necessidade de derrotar para ontem o neofascismo no Brasil, que não se rendem às receitas eleitoreiras e à calendarização política burguesa, mas que apenas não colocam o impedimento como “única saída” política para tal crise. Daí despontam ao menos duas reflexões crítica ao texto de Safatle que devem abrir a discussão:

a) Intelectual seríssimo que é – dos que mais admiro pela capacidade de mediar temas candentes da conjuntura nacional e internacional sobretudo com setores médios intelectualizados da sociedade –, Safatle por certo sabe que o impedimento de Bolsonaro não é a única saída para o atual cenário de crise. É sim a aposta que prefere fazer, certamente calcada em sua interpretação da realidade. Aposta que revela percepções, mas também concepções acerca da ação política que não podem menoscabar, eclipsar ou desconsiderar outros modos de agir que compõem o heterogêneo e plural espectro da esquerda em nossos tempos. Esquerda esta que não guarda qualidades de essência, mas que se plasma na história, como nos lembra Daniel Bensaïd. Ao chamar para si a “única” saída, para além de usar de artifício retórico perigoso, atenta contra sua própria demanda de reconhecimento à auto-determinação das forças políticas, expresso no último parágrafo de seu texto. Desconsidera a existência de saídas outras, que reclamam perspectivas tão ou mais radicais e urgentes que o impedimento, e acaba “atrapalhando” com suas formulações – de grande envergadura e enraizamento, divulgadas ainda em veículo de ampla circulação – o que é o alicerçar das múltiplas formas de luta que as classes trabalhadoras e setores médios se dispõem nesse momento. E que, reconheça-se, são muito fortes;

b) A segunda encontra-se na distinção entre elementos de ordem tática e estratégica, que Safatle por certo conhece não só na remissão a Clausewitz, mas sobretudo desde a pena de Lênin. E em seu texto, evidencia alinhar sua proposição ao horizonte estratégico, como se denota em diversas passagens do escrito. Isso por si só define aqueles elementos de concepção que tratamos parágrafos atrás, a denotar uma crença na possibilidade de transformação – ou de assunção radical de consciência – pelo ferramental jurídico e político próprio da burguesia. Como bem sabemos, direito e política não se confundem em um mesmo, tendo estatutos próprios, potências e limites particulares, e que muito embora se determinem reciprocamente, caso venham a ser tomados de forma amalgamada podem nos levar a más apreensões de suas funcionalidades, sobretudo quando os olhamos com perspectivas revolucionárias. Ao proporcionar tal confusão, ou Safatle tende a falhar em sua apreensão das potências da disputa institucional e jurídica pelo impedimento, ou reconhece seu valor de transformação radical. Os dois caminhos não me parecem plausíveis.

Nesta tensão de propostas políticas binária e nebulosa é possível tirar alguma conclusão objetiva? Sua construção do que é o campo da esquerda a que se antepõe poderia ser lido como o que concebe taticamente o uso do impedimento, e não estrategicamente? Negativas me parecem ser as respostas a todas as questões, que nos abrem a novas reflexões.

A primeira delas é que separar o joio do trigo se faz necessário, e isso passa por ser mais explícito em suas colocações. Fico imaginando se Walter Benjamin, ao invés de tratar explicitamente da social-democracia em “Sobre o conceito de história”, tratasse em sua Tese XIII, p.ex., seu objeto de crítica por “esquerda”. Que confusões não teria causado! Reclamo aqui, o que tratei desde Daniel Bensaïd em outro texto, que devemos reaprender a chamar um gato de gato. Repetindo a fórmula, se ele mia, ronrona, pula, caça ratos e se enrola em nossas pernas, ele é um gato. Se seu antípoda é um reformista eleitoreiro de baixo calibre, chame-o de social-democrata chinfrin, social-liberal, ou como teoricamente lhe parecer mais conveniente. Mas não faça diluir toda esquerda nesta projeção!

Esse reducionismo mais atrapalha do que ajuda a compreender o que são os esforços de transformação social em nosso tempo, sobretudo desde nossa particular realidade dependente e periférica e tendo em conta as forças políticas que nela incidem.

2. Não só o chamado do impeachment como “única saída”, mas também os traços que evidenciamos acima denotam a importância de uma análise política do instrumento institucional como algo de maior importância, não se esgotando sua problematização desde o esvaziador adjetivo de “cortina de fumaça”.

Safatle sinaliza a existência, como únicas, de duas posições que levariam certos campos da esquerda a se colocarem contra o impeachment: sua carência de efeitos concretos, haja vista que só trocaríamos o presidente, e a ideia de que o foco seja agora lidar com a crise sanitária.

Um primeiro problema nesta percepção é que são avaliações que partem de referências distintas (uma leitura estrutural, e outra de conjuntura), e que também por isso não podem ser confundidas ou antepostas sem ter conta da sua complexidade.

Daí despontar uma série de traços reducionistas que levam à discussão da matéria: seja pelo esgotamento da análise de tão complexo tema nestas duas nuances. Ou por tomá-las de forma isolada, sem que os elementos possam se interpermear, combinar, ou outros fatores pudessem se aliar a estes para realização destas avaliações. E ainda por tomar como se todas as leituras contrárias ao impeachment levassem necessariamente em conta estes dois fatores, o que pode não ser verdadeiro.

Uma leitura sóbria do instituto nos faz perceber, porém, seus limites estruturais. O impeachment, por si só ou mesmo aliado com outras ações de caráter institucional, não traz efeitos concretos substantivos, senão tímida e aparente inflexão no estado de coisas, que não se mostra satisfatória ante as reivindicadas mudanças radicais e revolucionárias que a sociedade em que vivemos reclama, e que encontra nesse momento de agudização da crise janela ímpar para se afirmar.

Deste modo, temos que ter clareza que neste atual cenário, o processo de impeachment poderia levar, em caso de sucesso, apenas à retirada de Jair Bolsonaro da presidência, para que então passasse a assumir o cargo Hamilton Mourão. Nenhuma alteração no corpo de governo, programa ou composição de classe no poder se verificaria. Estaria aberto risco não só aprofundar a participação militar no governo, como também de que a agenda neofascista passasse a se operacionalizar de forma mais intensa e competente, haja vista que os tropeções de Bolsonaro, muitas vezes nos próprios cadarços, o impedem de fazê-lo.

Em escala menor, buscamos na história a confirmação de minha hipótese, haja vista que que muito embora esta não julgue – como também Bensaïd nos lega em “Qui est le juge?” (Fayard, 1999) –, nos traz um manancial de experiências para lermos a realidade concreta e construirmos o futuro. E a  remissão não precisa ir até muito longe, apelo à memória recente. Lembram-se do bufão Ricardo Vélez, primeiro Ministro da Educação do Governo Bolsonaro? Pois bem. Ante as demandas populares por “Fora Vélez!”, sobretudo capitaneadas por setores ligados à educação, acabou caindo, e fazendo ascender um novo ministro, tão incompetente quanto, mas um pouco mais preocupado em fazer emplacar a agenda de Bolsonaro, que vem dando ainda mais trabalho no nosso agir em resistência e ofensiva frente o desmonte da educação e pesquisa no país.

Nada adianta tirar o operador, o agente, o rosto, e não mudar a estrutura da coisa. A crítica feita por Marx ao modo de produção, quando da projeção da ação política aos operadores do capital, e não à dominância e reprodução da relação social que se perpetua pela exploração pautada no assalariamento, cai aqui como uma luva.

Aparece assim o impedimento – quando não tomado como mecanismo próprio da politicidade burguesa para aprimoramento desta mesma, mas sim como ferramenta voltada à ação transformadora e revolucionária em prol de uma nova sociabilidade – mais como um beco sem saída do que efetivamente a única saída nas bifurcações que a história nos coloca.

O suposto saldo “civilizacional” que Safatle projeta a um sucesso no processo de impeachment remete, a meu ver, mais do que tudo a efeito simbólico do instrumento constitucional, que como Marcelo Neves há muito denuncia (Constitucionalização simbólica. São Paulo: Acadêmica, 1994) carece de potências na ação transformadora até mesmo daqueles que acreditam nesta institucionalidade. E que complemento, a quem nela não crê, serve de anestesiadora captura, seja pelos interdição imanente à forma-jurídica para transposição da forma-mercadoria (aqui Pachukanis nos ampara), sobretudo quando as disposições políticas não são postas explicitamente em seu uso, surgindo o trunfo institucional-jurídico como auto-suficiente. Algo assemelhado aos marcos de uma estetitzação da política (que remeto à boa síntese de David Gomes ), que em outra dimensão superestrutural marca esta anestesia.

Claro que nosso fazer político deve nos levar a apostas que nem sempre são seguras, e no largo das vezes são melancólicas – para remeter à pascaliana formulação do já exaustivamente citado Bensaïd. Ocorre que elas demandam avaliações a sério da conjuntura, e a questão da oportunidade de um pedido de impeachment deve ser levada em consideração.

Mesmo que acreditasse nesta como ferramenta para ação política, seria indispensável ter em conta que seu trunfo dependeria de uma articulação das forças sociais, massivamente mobilizadas, invariavelmente nas ruas. Tanto por caminhos democráticos e progressivos – como foi com Collor -, como desde um registro conservador e golpista – como se percebeu com Dilma –, os processos de impeachment que ocorreram no país foram referendados por ações de massa que por questões de responsabilidade – a que Bolsonaro já demonstrou não se amparar – se colocam impraticáveis pela esquerda no momento. Isso por nosso isolamento corpóreo e a acertada percepção que une os campos diversos da esquerda em não animar atos de rua e expressões de força públicas, de mais palpável evidência.

Isso para não dizer a potenciar abertura de margens ao acirramento de posições irresponsáveis do lado de lá, que já vimos agir como se nada tivesse a perder, em um fechamento mais intenso do regime por caminhos legitimados pelos agentes sociais de nossa classe, tal qual o da Constituição. Aqui se prenuncia, por exemplo, a discussão acerca da instalação (jurídica, institucional e também constitucionalmente garantida!) de um estado de sítio, que explicitaria com tapas em nossa cara o estado de exceção permanente em que vivemos.

Não se trata, pois, de um encontrar um timing para o impeachment. Se trata de uma avaliação de correlação de forças, que não pode, de forma alguma, por avaliadorx sérix, passar pelos impressionismos pessoais de nossas próprias janelas ou pela amostragem parca de outras varandas. Nada aqui a minorar os efeitos que os apitaços vem cumprindo no país nos últimos dias, mas se trata de um indicador fraco da inflexão da correlação de forças que poderia dar sustentação a um impeachment. Uma apreensão que tende potencialmente a distorções, que não ocorrem com o fazer efetivo da grande política – que por certo pode se transmutar em tempos de crise e isolamento, mas que me parecem insuficientes para realização deste balanço importante.

3. Se os “neoliberais não choram”  – e concordo, podendo dizer que a burguesia não chora! –, trata-se de nossa tarefa imediata apontar para caminho distinto e mais profundo que deixa de lado a mobilização de ferramentas forjadas pela burguesia. Não se trata propriamente de “empurrar o Estado” por meio de negociatas, tensionamentos de concepção de governantes ou algo que o valha. Bolsonaro não fará nenhum pronunciamento que se assemelhe ao de Macron – concordo! – , e Mourão muito menos. E como mencionamos, a consequência objetiva e concreta de um processo de impedimento, queiramos ou não, é a assunção de Mourão. Daí o prenúncio de que esta empreita, que por certo nos tomaria energias homéricas, mesmo que bem-sucedida será malfadada, reclamar no atual cenário outras bandeiras e ações.

Imagino que a primeira ação passe por desgastar politicamente Bolsonaro, gritar que acabou sua farra, que ele deve cair, e que ele vai cair. Que Bolsonaro já era, e não só por um episódio, um evento, mas por tudo que representa para xs oprimidxs e exploradxs do Brasil e do mundo. Estes chamados, mais que o impeachment, conseguem aglutinar de forma ampla o que seria um campo de frente única que se coloque imponente frente o neofascismo, sem cair nas arapucas da institucionalidade burguesa, que tanto nos traiu e segue nos traindo contemporaneamente (nós, aqui, tomando um referencial de classe).

Parece-me que o chamado de que Bolsonaro caia, pelas forças populares, em um massivo processo de disputa de consciências que não só apontem para esse suposta “força civilizadora” que é um vigoroso “Não!” aos desgovernos neofascistas, mas que ao mesmo tempo não só tenha efeitos simbólicos, mas sobretudo concretos, enraizando a compreensão de que o investimento dos fundos públicos não deve se direcionar à dívida, mas sim à garantia da saúde pública bem estruturada e de qualidade, capaz de salvar nossas vidas postas em risco diante da dimensão sanitária da crise, uma importante chave a ser capitaneada. Que as rédeas da organização social devem estar sob nosso controle, o que passa pelo estreitamento dos laços de solidariedade e auto-organização, e não pela distante institucionalidade burguesa. Que o trabalho deve ser organizado por quem trabalha, para atender às necessidades também destas pessoas, de forma a garantir nossas existências plenas e do mundo em que vivemos.

São pautas todas, que em um momento em que todxs clamam por informação, consciência, reinvenção, já que o atual estado de coisas não nos serve, devem ser animadas. E não devemos requentar as velhas fórmulas que nunca nos serviram, dourando a pílula como se estivéssemos diante de uma fórmula mirabolante e certamente vitoriosa.

Talvez possa parecer um “delírio”, mas é se destacar a recente aprovação do estado de calamidade – ainda que com seus potenciais riscos institucionais – já revela fissura política importante a ser tensionada em prol de alterações concretas, e repito, não só simbólicas, na existência das trabalhadoras e trabalhadores. É um passo relevante, por exemplo, para reversão de uma das maiores derrotas que tivemos com o golpe de 2016, qual seja, o estabelecimento do teto de gastos públicos advindos da EC n. 95/2016.

Deste modo, reclamar a queda de Bolsonaro pelas forças dos próprios trabalhadores e trabalhadoras ( e não pela mão de casas parlamentares) é medida de ordem primeira, que deve caminhar aliada à contenção das contrarreformas  – que inescrupulosamente seguem sendo pautadas – e ampliação dos fundos públicos destinados a serviços públicos, sob controle social destas mesmas pessoas que trabalham. Só assim os neoliberais chorarão, pela dilapidação de seus interesses egoístas.

4. De fato Safatle acerta quando diz que o gesto de tombar Bolsonaro por meio de um impeachment tem função civilizadora. Deixa de dizer a que civilização se refere. Parece-me claro que ao retroalimentar o caminho institucional, tacanho, insuficiente e por vezes perverso do impeachment , está a reforçar uma civilização particular, aquela que se arroga à condição de Civilização com “C” maiúsculo – que tantxs já criticaram no campo do “marxismo crítico”, de Mariátegui em seus debates acerca da Revolução Russa a Löwy, no texto que acima citei –, que é a civilização capitalista, industrial, moderna e ocidental.

Entendemos, porém, que eventual “força civilizadora” de um processo social de afirmação dos interesses das classes trabalhadoras deve passar pela construção de outra civilização, que se ampara também naquelas destruídas ou em destruição pela tônica do capital, que resistiram e resistem com suas ânsias de existência anticapitalistas, pautadas em outros registros de existência, sociabilidade e politicidade que não as burguesas. O instrumento do impeachment e seu uso estratégico nos fazem recair na crença pia que pelos caminhos da própria ordem instituída –  e ao revés do apontado por Safatle, não guarda consigo qualquer potência destituinte – essa mudança pode vir. Mas ela não virá.  

Não há dualidade de projeto ou arranjo nesta proposta, mas sim a funcionalização de um mesmo desenho institucional que não é nosso. E se jurídico e político não se confundem – como bem sabemos desde Marx, e que como tão bem sintetiza o colega e amigo Vitor Sartori –, ao menos podem se combinar. Mas esta combinação deve ser explícita, reconhecidas as debilidades do “campo do direito”. Se é desde o político que a suprassunção da ordem pode se dar (e jamais pelas limitadas operacionalizações da juridicidade), que possamos ao menos ter clareza do que são os saldos potenciais concretos, ante o que são as aberturas potenciais de obstáculos, que um processo de impedimento pode resultar. Nada disso parece estar no horizonte de Safatle.

E espanta essa crença no impeachment. É de se perguntar a Safatle, ainda no que se refere à conjuntura, o que teria mudado de forma tão substantiva no Congresso Nacional para que em 2016 o desdém por este instrumento fosse tal, a ponto de ter mencionado em artigo na Folha de São Paulo que “um Congresso gangsterizado” não teria legitimidade para tomar decisão dessa natureza, e que faria agora ter. O gansterismo não é ainda maior na atual legislatura? Seria suficiente a força de uma tímida oposição – menor do que a de outrora – fazer inflexior esta avaliação? Que grande mudança política na composição do Congresso, ou na correlação de forças, que autorizaria mudança tão abrupta de leitura?

Essa guinada de crença na institucionalidade faz revelar que a percepção expressa por Safatle – bem como pelxs que adotam a bandeira do impeachment sob estes argumentos – remete à outra face da moeda da social-democracia eleitoreira e institucionalista. A crença das duas linhas políticas converge na intervenção pautada na politicidade erigida burguesia, inapta a promover alterações estruturais na ordem social. Uma se avoca mais radical do que a outra, sem, todavia, conseguir de fato galgar saltos mais substantivos na melhoria das condições de existência das classes trabalhadoras. Outra é estrategicamente amparada em saídas próprias do “cretinismo da legalidade”, como definirá Lukács em História e Consciência de Classe, e uma em um taticismo que não consegue se desenredar desta massa de atração em que gravita.

Seria esta a triste sina da esquerda que, morta e tomando sua morte como gérmen do novo, deve se reinventar? Apostando novamente na institucionalização das lutas e na espetacularização dos seus caminhos? Que reconhecendo uma crise de direção – para utilizar da velha formulação, que em outras linhas aparece no texto de Safatle – visa cunhar de forma episódicas, cavando fatos políticos, novas lideranças para dar o dito sinal verde de ação transformadora?

Muito embora compreenda o argumento e as referências de Safatle, entendo que a esquerda não morreu. E que tivesse morrido, não seria por estas sendas que a ressurreição viria.

5. Por fim, e não menos importante, algumas coisas têm que ser colocadas a público, para que mal-entendidos sejam evitados. E aqui me volto às linhas que estranhamente abrem o texto, sobretudo com a menção à supostamente heroica postura de três deputadxs que apresentaram pedido de impedimento contra o presidente Bolsonaro.

Muito embora xs três parlamentares mencionadxs sejam vinculadxs ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), é importante registrar que esta não expressa uma posição partidária. Fernanda Melchionna (RS), Sâmia Bonfim (SP) e David Miranda (RJ) – que com esse ato se unem, até o momento, a outros seis proponentes de impedimento em disputa por seu virtual protagonismo, dentre os quais o ator e Deputado Federal Alexandre Frota (PSDB-SP) e o Deputado Distrital Leandro Grass (Rede-DF) –  em verdade revelam posição de uma força política que atua dentro do partido, o Movimento da Esquerda Socialista (MES), da qual fazem parte. Força politica, bem lembrar,  que até meses atrás batia palmas para a Operação Lava Jato, animava seus “saltos de qualidade”  e reclamava que esta fosse “até o fim”, muito embora as infindas críticas à sua seletividade e aos efeitos profundamente daninhos que sua inversão na lida com os ditames democráticos do processo penal poderiam trazer às classes trabalhadoras (e já vem trazendo, como mostram as certeiras ponderações de Carla Benitez, tanto em sua tese doutoral como em textos de opinião[1][2]). Felizmente mudou de postura aos ventos da #VajaJato, mas ao que parece não alterou a crença na institucionalidade e legalidade burguesas para fazer suas apostas de circunstância.

Safatle se aproximou do PSOL por intermédio da militância uspiana do MES, muito embora, até onde eu saiba, não componha esta corrente organicamente. Cumpriu importante papel quando da filiação ao partido, em processo de definição de candidatura ao governo do Estado de São Paulo, fato que pude acompanhar por militar no partido ainda naquele estado (naquele momento já construindo a Insurgência). De todo modo, parece agora expressar suas posições em um momento em que internamente ao partido, às vésperas de processo congressual, tal agrupamento busque cravar demarcações para dentro e para fora de seu conjunto de filiadxs. Se é extremamente salutar que o debate transborde a militância do partido – e para isso é fundamental que tenhamos compreensão do que aqui narro –, de outro espera-se que a possível intenção do texto não se resuma à auto-construção, interna e externa, de uma força política, mas que, mas que sim expresse profundo convencimento acerca da matéria pelo intelectual, como já mencionei.

7. Nenhumas destas considerações me coloca contra o impeachment por princípio, mas apenas em princípio. Não sou dado a juízos inarredáveis, essencialistas, imutáveis. Dentro da institucionalidade burguesa lastreada por desígnios formalmente democráticos, não tenho dúvidas que se trata o impedimento de instrumento que pode taticamente ser atravessado pelo uso político em favor do interesse dos trabalhadores e trabalhadoras. Ocorre que nesse momento não será.

Sendo adepto das perspectivas de uso tático do direito, não posso deixar de reconhecer as estruturais limitações que a juridicidade guarda, e o quanto esta só pode ser instrumentada pelas classes trabalhadoras quando se vislumbram possibilidade de que sua operacionalização se dê com vistas ao aprofundamento da sua ação política revolucionária. O impedimento, ainda mais nesse contexto em que nossas reuniões e projeção de saldos só pode se dar – ou espero só se dê – na virtualidade, levaria muito mais à reafirmação da crença de que podemos fazer mudar pelas chaves políticas burguesas, do que propriamente que estas devam ser suplantadas para a construção de novas.

Reavaliações deverão ser feitas futuramente, já que o(s) pedido(s) aberto(s), sem grande responsabilidade política e sem amparo de massas (ou 100 mil assinaturas virtualmente colhidas podem ser consideradas expressão de movimento ampla dimensão?) nos colocarão ante a novas condições concretas, que clamarão novas avaliações. Afinal, seus efeitos virão como o coice de uma arma de fogo disparada. Ocorre que um processo de impeachment sem possibilidades de ação de massa, e sem potenciais de apreensão consciente desta ação massiva como transformadora, é um tiro no nosso pé. Ou vão permear nossos imaginários, em tempos que não mais estaremos isoladxs em nossas casas, que serão por apitaços e tuitaços que mudaremos o mundo?

Pois bem, lidaremos com o coice e a ferida. Sobretudo quando sabemos que no enfrentamento de classe, como Safatle tem nitidez e aponta no texto, é contra um inimigo que não tem escrúpulos, que não se sensibiliza e apenas conta, e que não medirá esforços em sua irresponsabilidade para jogar todas as suas fichas. E com pesar, mais debilitados, teremos que nos colocar no campo da política.

O que traz alento é que a força que anunciei no item 1.”a” deste texto se manifesta inclusive dentro do PSOL –  tendo em conta ser minoritária a posição conduzida por estxs três aguerridxs parlamentares quando do protocolo do pedido de impeachment – e também fora do partido. Há uma força social que, na vida pública, se mostra arredia ao impedimento nesse momento, e com acerto.

Safatle, como poucxs e há muito, anima esse esforço e se coloca de modo importante como intelectual público, conduzindo debates relevantes e em muitas circunstâncias com acerto. Nesse caso, não só pecou pelo impressionismo, mas também se faltou fazer transparente.

São Paulo, 22 de março de 2020.

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