“Que la necesidad no perturbe nuestros sueños”

Por Carla Benitez

Fotografía de Martín Weber, parte da exposição “Un Mapa de América Latina. Los Sueños”.

Este não é, rigorosamente, um texto de opinião política ou algum tipo de contribuição acadêmica.

Este é um texto sobre sonhos.

Quem dera todas as pessoas tivessem oportunidade de alçar vôos a outras culturas, tocando alteridades e abrindo caixinhas internas que estavam sem serem notadas e, ao serem alcançadas, tornam-se capazes de recuperar o infantil e recobrar encanto e beleza até aos mais incrédulos.

A mim, sempre me passa deslumbramento com a capacidade vital e criadora humana quando me permito sair do cotidiano adestrado. Viajar sempre me toca como renascimento.

Quero lhes contar da última, não como um diário de viagem, mas como um relato pessoal de dois momentos a ilustrar o que me soa como potência regeneradora.

Este é um texto sobre vida e sobre sonhos.

O fio condutor deste nosso passeio à Argentina era a celebração da já próxima chegada ao mundo de um bebê gerado por duas pessoas sensíveis, lindas e muito especiais para mim.

Esta potência de vida como que se espraiou do pessoal e do íntimo para o universal, o transhistórico, o político, gerando a reflexão escrita aqui apresentada.

Argentina é um país que nutro conexão há significativa parte de minha vida. Admiro seu povo, cultura e resistências. Trata-se, de um lado, daquele íntimo reconhecimento latino-americano, acompanhado, de outro, de certo espanto que suas singularidades nos geram: a força até mesmo “mística” do peronismo que nos escapa na busca por compreensão de seus sentidos políticos; a presença indígena, mesmo com todo cosmopolitismo e processo de branqueamento da capital federal; a apropriação coletiva do espaço público, para o desfrute, o ócio, o prazer e o fazer político.

Um fazer político que é regado, hodiernamente, pela memória. Ah, quão importante é ela, coletivizada, pregada em muros e desenhada em calçadas. Isso a torna memória viva e revisitada, isso intergeraciona sua existência.

1. Río de La Plata: abrigo de peixes e memórias

O porto e os aterros teriam definido certa distância dos porteños com o rio. Mas a ponta norte de Buenos Aires insistiria em atribuir essa necessária conexão e ali foi concebido o “Parque de la Memoria”, com múltiplas obras de arte a ativar até ao mais robótico humano a percepção do caráter atroz do terrorismo de Estado1 em solos argentinos entre os anos de 1976 e 1983.

Com destaque, o gigantesco muro nomeado “Monumento a las Víctimas del Terrorismo de Estado”, a cravar na pedra e nos corações os nomes das pessoas presas, desaparecidas e assassinadas, os nomes daquelas que “morreram combatendo por ideias de justiça e igualdade”.

“(…)

1974

(…)

Ivanoff, Liliana – 20 años

Jabif, Guillermo – 22 años

Kozameh, Eduardo Prospero – 64 años

Laguzzi, Pablo Gustavo – 5 meses

Laham, Carlos Ernesto – 20 años

Juarez, Felix Fortunato – 61 años

(…)”

30000 jovens, mulheres, grávidas, bebês, crianças, idosos…

Quais seriam seus sonhos? Milhares de sonhos mergulhados no Río de La Plata.

Diante de nossa intrínseca efemeridade, quais os nossos sonhos, dos mais comezinhos, pessoais, aos universalizantes ou sociais?

Piscina para os dias ardentes? Patins? Estudar música? Ter filhos? Encontrar e cultivar amores?

Em uma instalação do Parque, uma exposição de Martin Weber, fotógrafo argentino nascido no Chile. Com um projeto de mais de 20 anos, no qual pode visitar 53 cidades e povos de diferentes países da América Latina, construiu belíssimas composições fotográficas criativamente montadas a partir do registro das pessoas participantes, em uma lousa negra, de um seu sonho.

Um senhor cubano a desejar ser poeta.

Uma acrobata de circo sonhando ser “abogada”.

Uma travesti brasileira registrando seu sonho por colocar silicone.

Na abertura da obra, um elegante rapaz cubano sustentava em suas mãos a lousa com os dizeres “Que la necesidad no perturbe nuestros sueños”.

Entre lágrimas contidas, líamos e víamos simbolizados os sonhos pela terra, pela moradia, por trabalho, por comida…

O sonho pela pistola, das crianças zapatistas que possuem uma percepção aguçada de sua necessidade de combate e autodefesa.

O sonho de “morirme” de um jovem franzino de olhos tristes. Quando o sonho é deixar de sonhar…

Quando as necessidades vitais se tornam sonhos não seria uma urgência reivindicarmos a todos a possibilidade de sonhos-deleite?

A nos lembrar o Río habitado de peixes e memórias que nos esperava do lado de fora, um rapaz argentino, pareado, provavelmente, às suas avó e irmãs, sustentava sua lousa: “tener la memoria de como mi viejo desaparecido vivía sus sueños”.

2. A memória que brota como flor-resistência

Do lado da cidade em que o Río não mais é visto a “olho nu”, no coração de Buenos Aires, marcas na arquitetura e na ocupação do espaço do ritual das Madres de la Plaza de Mayo de circularem todas as tardes de quinta-feira, desde 1977, evocando os nomes de seus familiares amados e desaparecidos. E que, como as próprias “Madres” afirmam, já não são mais um, dois filhos de uma e da outra, mas 30.000 de todas elas.

Muitas começaram a marchar pela dor da perda e a necessidade de se somar às dores de outras para buscar o paradeiro de entes queridos. De aí resultou um processo de conscientização capaz de formá-las politicamente, tornando-as um referencial na luta anti-sistêmica por direitos humanos em todo o mundo.

O Río de la Plata, com seus peixes e memórias, invade o coração de Buenos Aires todas as tardes de quinta-feira, todos os dias e segundos enquanto a memória coletiva for cultivada e convertida em rebeldia, irresignação e resistência.

Naquela quinta-feira, ouvimos Norita – Nora Cortiñas, em uma roda de pessoas que se socorre na copa de uma típica frondosa árvore das praças porteñas. Com a foto de seu filho Carlos Gustavo Cortiñas no pescoço feito colar de joia rara, com a sombra verde delineada em seus olhos-esperança combinando com o pañuelo da mesma cor firmemente enlaçado em seu pulso esquerdo – símbolo da luta arrebatadora das mulheres argentinas pela legalização do aborto no último período, a agitar as águas argentinas e levar para o ralo o projeto neoliberal de Macri – Norita distribuiu conhecimentos, testemunhos e se colocou na teia de lutas da cidade, lado a lado com tantas e tantos outros anônimos da história.

Norita representou, para nós, em seu corpo, sua trajetória e seu discurso, o quanto a luta das Madres de la Plaza de Mayo adquire magnitude ao se identificar com as resistências dos imigrantes no país; com a denúncia do caráter político dos processos contemporâneos de criminalização de mulheres; com a luta contra a fome que matou pessoas em situação de rua na cidade dias antes daquela roda de conversa; com a luta contra o genocídio do Estado reinventado diante do assassinato de um jovem pela polícia naquela mesma semana.

Uma luta que expressa um projeto político de sociedade, que enfrenta os “poderosos” e seus atos de rapina das riquezas naturais, econômicas e culturais de povos inteiros.

Ao ecoar as vozes de outras mulheres em seus registros afetivos de memória de seus parentes, puxando palavras de ordem “Presentes! Hoy y siempre!”, Norita nos mostra que os 90 anos de experiências, dores e lutas que carrega não retiraram o cintilante de esperança e de alegria de sua caminhada.

Norita sonha com um outro mundo possível.

O sonho de Norita é semeado no cotidiano de sua existência.

Eu sonho com o sonho de Norita e que a criança que já celebro a chegada possa viver e construir este outro possível, em sua máxima humanização.

E você, qual o seu sonho?

1Utilizamos neste texto o termo terrorismo de estado, respeitando o sentido político consolidado na Argentina sobre o caráter da violência nestes anos de ditadura no país, especialmente após a realização dos trabalhos na Comissão Nacional da Verdade.

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