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1º de janeiro de 1994 – Revolução Zapatista em Chiapas, México


Foto de Antonio Turok

Por Gustavo Seferian

Não por coincidência, mas por apego simbólico às datas e à necessidade de suas disputas, no dia em que passou a vigorar o NAFTA – tratado que criava uma zona de livre comércio entre os países da América do Norte, que levaria ao aprofundamento da dependência mexicana para com os EUA e Canadá –, no ponto mais austral do subcontinente o Ejército Zapatista de Libéracion Nacional (EZLN) toma a cidade de San Cristóbal de Las Casas e inicia o processo que ficou conhecido como Levante ou Revolução Zapatista.

Programada inicialmente para outubro de 1992, nos marcos dos 500 anos da colonização americana, revelou também na prática a boa lição de que revoluções não amadurecem ou apodrecem. Não comportam horas marcadas, acontecem quando as condições materiais e organizacionais se encontram.

Reivindicando terra, autonomia e a defesa de valores ancestrais das populações indígenas de origem maia, a luta armada perdurou por 12 dias, desembocando em um processo de negociações mediado por representantes da Igreja Católica Romana que cristaliza os não cumpridos e reivindicados acordos de San Andrés.

Muito embora tendo aparente curta duração – ainda que seja permanente a mobilização chiapaneca até os dias de hoje –, sob os gritos de “¡Ya basta!” o movimento se colocou como principal força anti-capitalista, contraposta à ofensiva neoliberal, então a todo vapor em escala global. Este reivindicado novo mundo possível, em que a participação de mulheres na construção da vida política se mostra marcante e que a harmonia entre a vida humana e o restante da natureza indispensável se coloca como um exemplo que roda o mundo, acompanhado das marcas fortes de homens e mulheres – e quantas mulheres! – armados e com pasamontanãs, liderados pelo Subcomandante Marcos, seu porta-voz, Reiventa não só a política, a democracia, o sonho, mas também a comunicação, a agitação e a propaganda, inaugurando uma nova vaga de lutas sociais, abertas a uma outra globalização que não a da mercadoria, desde abajo y la izquierda.

A riqueza do processo e sua inventividade revolucionária se colocam desde a pluralidade de suas referências. Michael Löwy anunciou cinco bases que serviram à sua formação: o guevarismo – que não só remete à particularização latino-americana do marxismo, mas à importância audaciosa da luta armada –; a herança de Emiliano Zapata, que impulsiona desde a luta dos camponeses e indígenas pela terra os influxos da primeira revolução mexicana; a Teologia da Libertação, que em um primeiro momento serviu à auto-organização popular na região de Chiapas; a ancestralidade cultural maia como expressão de resistência e articulação orgânica, “mágica”, com a natureza; e o caldo social de lutas por democracia existente historicamente no México, também marcantes no período da insurreição.

Este complexo de elementos, como não poderia deixar de ser, não foi recebido de modo uniforme. Desacreditado por alguns céticos e por apologetas da ordem social, o movimento foi mesmo por seus entusiastas recebido de forma bastante diversa, que invariavelmente se desencaminharam para as armadilhas da pós-modernidades. Exemplo maior desta expressão foi a leitura de John Holloway, que em sua já clássica obra sobre o processo revolucionário deixou-se acreditar pela possibilidade de “mudar o mundo sem tomar o poder”. Como defender esta ideia ante um processo que declarou guerra ao Estado mexicano, ocupou pela luta armada casas de poder, sentou-se com representantes governamentais para negociar um cessar-fogo e assentar as conquistas insurrecionais, buscando, na constituição desta dualidade de poderes, afirmar o controle autônomo de territórios em que a democracia impera?

Uma coisa nos parece certa: de Porto Alegre a Rojava, do MST às lutas estudantis, de 1910 a 2020, o grito e a ação estratégica revolucionária desde a selva Lacandona seguem urgentes e nos inspirando!

Buscando saber mais? Indicamos, sobretudo, os escritos zapatistas, sejam pelas palavras do Subcomandante Marcos, seja através dos documentos do EZLN. Aqui merece destaque a coletânea, organizada em 5 volunes, de título “EZLN: documentos y comunicados” (México: Era). Ademais, as lembranças de lenta impaciência de Daniel Bensaïd em “Marcos e o espelho partido da mundialização”, e a troca de correspondências entre Michael Löwy e John Holloway acerca da obra “Mudar o mundo sem tomar o poder” nos contemplam na leitura do processo. Com as merecidas críticas – também largamente tecidas por Bensaïd –, o texto de Holloway também revela importante interpretação sobre o tema. Sobre os acordos de San Andrés e com aproximações de debates jurídicos, apontamos o texto de Miguel Ángel Sámano, Carlos Durand Alcántara e Gerardo Gómez Gonzalez, “Los acuerdos de San Andrés Larraínzar en el contextos de la Declaración de los Derechos de los Pueblos Americanos”.

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